Atriz, que faz a roceira Zefa em Paraíso, também canta e dança, e já contabiliza 19 musicais no teatro
28/06/2009
Berg Silva
Soraya Ravenle em sua casa: sempre em mutação e temerosa da instabilidade financeira
Aos 46 anos, Soraya Ravenle passou várias semanas entrando em cena vestindo trapinhos e usando um cabelo meio desgrenhado em Paraíso. Até que veio a virada de Zefa, sua personagem roceira na trama das 18h; agora, depois de um banho de loja e autoestima, ela usa esmaltes vermelhos e decotes. Mais corajosa, até já roubou um beijo do patrão, Eleutério (Reginaldo Faria), por quem é apaixonada. Nesta entrevista, a atriz que também canta e dança — ela começou a estudar piano aos 5 anos e já fez quase 20 musicais no teatro — fala das várias Sorayas que tem dentro de si, de sua preocupação com as rugas e da instabilidade financeira que acomete a classe. E brinca que, em nome da arte, vale a pena o sacrifício de ter que rebolar para encaixar terapia e aulas de canto na agenda apertada e desregrada de quem grava uma novela.
Você ainda não tinha feito uma personagem do interior, não é?
Soraya Ravenle - Nunca tinha feito uma roceira. Zefa é uma mãezona, e ao mesmo tempo nutre um amor platônico pelo Eleutério (Reginaldo Faria). Ela é totalmente pudica em relação a esse amor e sente culpa. Até que tem a transformação. A história que fiz disso é que ela foi para a casa dos parentes na Bahia e as pessoas falaram “Que isso, Zefa? Vai ficar com esse vestidinho? Não se arruma, não?”. Ela ganhou banho de loja e de autoestima. Zefa fantasia, nem dá para saber se ela gosta mesmo do Eleutério. Vai que dá um beijo e não tem química?
Quem ou o que te inspirou a fazer a Zefa?
Soraya - Eu tive uma mãe de criação que veio de Parintins. Perdi o pai cedo, com 5 anos, e a Ana criou a gente com a minha mãe. Ela não se casou, não teve filhos e se dedicou à mim e à minha irmã (a cantora Itamara Koorax) a vida inteira. Nem sei se teve namorado. Nos primeiros dias de gravação caiu a ficha. Ana era dona de casa, cozinheira, era aquela mulher que nega seu lado mulher, como a Zefa. O jeito dela me veio completamente. É um corpo que se encolhe, porque não transa, não tem vida sexual. Os gestos são menores, nada elegantes. Ana foi minha grande inspiração.
Acredita em mudanças como a de Zefa?
Soraya - Na ficção, essa virada é perigosa, podemos perder a mão. Para mim é uma luta, um dilema. Vejo muitas Sorayas que não me servem mais, tento mudar constantemente, busco isso na minha vida.
No início da novela, a Zefa era desarrumada. Como ficou a vaidade?
Soraya: Estou bem cercada. A novela parece cinema, é feita com capricho. Demoramos mais para gravar porque nos preocupamos com os ângulos, com a luz. É uma fotografia sofisticada, e fui protegida por tudo isso. Tenho 46 anos, e volta e meia me vejo com mil questões relacionadas à idade. Tem aquela paranoia de disfarçar as rugas, todo mundo sabe que a TV engorda e envelhece. Posso até vestir trapinho, mas o rosto tem que estar legal (risos). Mas tem um limite, estou mais preocupada em evoluir artisticamente.
Você fez muitos musicais no teatro. Como foi parar na televisão?
Soraya: Minha mãe me botou na aula de piano aos 5 anos, e me formei em teoria musical aos 11. Quando comecei a fazer musicais, há 21 anos, descobri o que eu queria realmente fazer: unir atuação, canto e dança. Outro dia fiz as contas: estive em 19 musicais. Eu estava fazendo Dolores e o diretor Ricardo Waddington foi me ver no teatro. Dois dias depois, eu estava no Projac conversando com ele para fazer Laços de família, minha primeira novela. Nos anos 80, tinha feito uma ponta em Que rei sou eu?. Fui chamada para dançar na corte, mas mudou tudo e me botaram na cozinha descascando batatas com a Giulia Gam.
Fazer novela não é muito puxado?
Soraya: Na TV a gente fica sem hora. Pego meu roteiro na sexta-feira para fazer minha semana, aí saio ligando para marcar aula de canto, terapia. Mas vale a pena quando se está num trabalho como Paraíso. Vale o sacrifício de arrancar os cabelos para desmarcar compromissos.
Qual é o lado negativo da sua profissão?
Soraya: Talvez seja um lado com o qual eu já me acostumei, que é a instabilidade financeira. Pode ser enlouquecedor. Nem sempre o ator consegue viver bem do seu trabalho. Posso dizer com orgulho que fiz uma carreira sólida com musicais, e ganhei dinheiro. Mas sei que sou uma exceção.
Fonte: Diario da Manhã






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